Capítulo Dois - Alex *Versão em português*
Alex estava estranho aquele dia. Normalmente, ele era mais
comunicativo. Porém, ficou sombrio por causa de um fora que dei nele. Ele
tentou me beijar depois de uma missão. Eu desviei o rosto, lógico!
Ele não entendia.
Eu o amava, mas não da forma que ele gostaria.
Não podia me apegar assim, tão fácil. Toda pessoa a quem eu me
apegava acabava se machucando, ou pior. Eu era muito grata a ele, mas...
Talvez eu preferisse a solidão. Um sofrimento que era mais
fácil de lidar, sei lá.
Se as pessoas pudessem ver os demônios que eu vejo, com
certeza não chegariam nem perto de mim. As que sabem com o que eu lido preferem
me evitar, como se eu fosse o próprio Diabo . Aliás, já fui jurada de morte por
algumas pessoas e, por Deus , Já tentaram.
O dia que o conheci veio em minha mente. Foi o acaso que me
levou àquele encontro, pois eu raramente frequentava a região. Era noite, uma
chuva torrencial castigava a cidade. São Paulo não era à prova d’água, bastava
uma chuva fraca que ela se transformava em um caos, mas aquela tempestade fazia
o apocalipse parecer suave.
Eu corri para me esconder debaixo da marquise de uma igreja
evangélica quando, entre os trovões e relâmpagos, escutei gritos abafados. Eu
entrei por uma fresta por baixo do portão. O lugar estava escuro, já não havia
energia elétrica. Subi as escadas em direção aos berros, que não pareciam nem
um pouco com aquelas orações fervorosas que os crentes costumavam fazer. Senti
medo, pois no fundo da alma, eu sabia o que estava acontecendo.
Quando abri a porta, fui tomada pela fumaça e pelo calor, as
chamas devoravam as cortinas do altar. Mesmo assim, eu entrei. Um capeta chifrudo
com pernas de bode atacava uma família. Seu tridente arrancava as tripas de um
senhor quando Alex caiu aos meus pés.
Reparei nos olhos arregalados e encharcados do rapaz. Estava
ferido, mas era o único sobrevivente. Eu encarei a fera e apontei o meu
revólver. Alex gritava o nome de Cristo por misericórdia. Então, eu disparei.
Foram quatro tiros.
A criatura gemia, mas mesmo com seu sangue roxo esvaindo,
ela decidiu me atacar. Deu um berro estridente em nossa direção, mas mal
conseguiu se aproximar, pois quando estalei os dedos, sua existência acabou em
uma explosão.
Eu arrastei Alex para fora do local antes que desmoronasse.
Ficamos nos encarando embaixo da chuva enquanto ouvíamos as sirenes que se
aproximavam. Depois daquele dia, nunca mais nos separamos.
Alex não conseguia lidar com essas criaturas no começo, mas
desde sempre ele podia vê-las. Então, ele viu exatamente o que aconteceu. O
trauma é como uma ferida insistente que arde todos os dias e parece que nunca
vai sarar.
O rapaz insistia em me ajudar, não só a lidar com as
criaturas, mas como a me sustentar por meio de missões que elas mesmas podiam
gerar. Ele pediu que eu o treinasse para que pudesse me servir de apoio durante
as missões.
Ainda assim, se eu pudesse, eu apagava da minha memória o
fato de que o filho da mãe tentou me beijar. Foi depois de uma missão
complicada que ele me segurou pela cintura e fixou os olhos nos meus. Quando
percebi os lábios se aproximando, eu desviei. Eu amarelei! Não sei o que
aconteceu. O irritante é que, no fim, eu me sentia culpada.
Apesar da frustração, Alex continuou prestativo. Sempre
chegava cedo no escritório,
encontrando clientes e lidando com eles.
Frequentemente bem-vestido. Deixava tudo organizado. Até o café ele preparava.
No fundo, eu sabia que o que ele sentia era gratidão e um
desejo obsessivo de retribuição. Sim, pois eu exorcizei, ou seja, matei o
capeta que trucidou sua mãe, seu pai e os seus dois irmãos mais novos dentro
daquela igreja.
Por isso, não consigo acreditar que o beijo fosse amor ou
desejo, mas gratidão. Era provável que ele estivesse confundindo as coisas.
Muito provável.
Enfim, o que eu precisava era parar de pensar nessas
bobagens e focar na missão. Eu estava recarregando o revólver quando Alex
voltou à sala. Coloquei o revólver no coldre preso no cinto e guardei toda a
munição na bolsa lateral. Quanto ao punhal, embainhei no outro lado do quadril.
Depois, vesti minha jaqueta de couro preto de sempre.
— A senhora já está pronta! — Ele notou. Seus olhos quiseram
encontrar os meus, mas desviaram.
— Vamos! — Eu disse e caminhei em direção à porta.
Depois, ele dirigiu o carro em silêncio. Antes, a gente
tinha o costume de conversar, principalmente sobre as missões e os lucros.
Era “senhora Dandara, isso... senhora Dandara, aquilo...”.
Eu detestava o jeito formal com o qual ele se dirigia a mim, mas naquele
momento fez falta. O clima estava estranho demais entre nós.
Suspirei.
De repente, o trânsito que parecia calmo tornou-se caótico.
Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo, sentia isso no clima pesado
daquela noite.
Alex foi obrigado a estacionar o carro um pouco longe do
local, devido a alguns desvios feitos pela prefeitura. Então, descemos do
carro. Ele pegou sua mochila no porta-malas.
— Você não precisa ir comigo, se não quiser — eu disse, com
um olhar desafiador. — Eu termino o serviço e volto logo — sorri.
Ele sorriu de volta.
— Não sou como a senhora, que pode usar energia espiritual
para exorcizar as criaturas. — Enquanto falava, ele retirou um machadinho
imbuído de energia espiritual de dentro da mochila. Era um presente meu de
aniversário. — Porém, a senhora sabe muito bem que agora eu sei lidar com elas.
“Hunf!”
Continuei sorrindo em resposta. Enfim, ele demonstrou um
pouco de bom humor.
— E pare com essa chateação de me chamar de senhora!
— Sim, senhora... digo, Dandara.
Essa mania irritante que ele tinha de querer me proteger.
Ainda me chamava de senhora. Aposto que era só para que eu me sentisse mal por
ser mais velha que ele. Caramba, como era irritante!
No entanto, eu estava aliviada por ele voltar a falar
comigo.
De repente, um baque. A energia amaldiçoada do local era tão
forte que era possível sentir a pressão de longe. Viramos e encaramos o
horizonte. Era aquele prédio. Uma forma alta e imponente que enfeitava a
paisagem sombria de uma noite urbana. Reparei que a energia densa escorria
pelas janelas do edifício inteiro.
— Droga! — praguejei. — Espero que o “sinal” desse cliente
tenha sido bom.
— Pode acreditar que foi, sim — Alex respondeu.
***
Conforme nos aproximamos, atravessamos uma muvuca. Centenas
de pessoas tumultuadas pelas calçadas. Muitos de seus pertences estavam por lá,
como colchões, geladeiras, fogões, móveis e roupas. A polícia, com todas as
suas viaturas e aparatos de guerra, se certificava de que ninguém entrasse no
prédio e expulsava com violência quem já estava lá.
Encarei Alex à espera de uma resposta para o que acontecia.
— Reintegração de posse, senhora Dandara.
Respirei fundo. A forma correta para um exorcismo seria com
o local completamente vazio, pois exorcismos, em um momento como aquele, por
exemplo, seria perigoso. Alex sabia disso, então pegou o celular e ligou para o
cliente. Os dois discutiam enquanto eu observava o movimento.
Era revoltante: primeiro, a polícia se livrava das pessoas,
depois, nós terminaríamos o serviço ao limpar o lugar dos espíritos malignos,
para que alguns ricaços arrogantes voltassem a ter seu prédio de volta. Olhava
aquelas pessoas, humilhadas e rejeitadas como se fossem a escória da Terra.
Jogadas na rua com seu direito constitucional de ter um teto sobre suas cabeças
negado. Eu poderia, muito bem, estar no lugar de uma delas. Sim, eu poderia estar
com uma daquelas famílias se não fosse esse trabalho sujo.
Alex me chamou com um semblante curioso. Apertou o botão de
mudo no celular e deixou o cliente na espera.
— O que foi? — perguntei.
— Ele insistiu para que façamos o exorcismo hoje.
— Sem chance!
— Você não entendeu. Ele quer o prédio limpo hoje! Insistiu
que a polícia já o esvaziou.
— Playboy irritante! — Bufei. — Nós temos nossas regras.
— Não, escuta só isso. Ele triplicou o pagamento.
— O quê?
Alex ergueu as sobrancelhas.
Respirei fundo outra vez.
— Está certo! — eu disse, depois de pensar um pouco. —
Retorna a ligação e confirma, mas avisa que primeiro vamos vistoriar o local. Se
estiver seguro, faremos o exorcismo.
Alex voltou a negociar com o cliente, enquanto eu observava
a polícia expulsando as pessoas que estavam ao redor do lugar à base de
violência e de spray de pimenta.
Aquele era um prédio bem antigo, talvez tombado como histórico,
porém, abandonado, invadido e, agora, reintegrado.
O centro de São Paulo é um local repleto desses tipos de
edificações, que carregam o capricho de uma época distante e o desprezo da
atual. E, justamente por ser o centro da capital, toda a energia negativa e
amaldiçoada da cidade era descarregada ali. Não era difícil perceber o
contraste da bela arquitetura urbana com a repugnante miséria. Muitos dos que
moravam ali não viviam, apenas sobreviviam.
Por isso, todo aquele sentimento ruim atraía os espíritos
amaldiçoados. Milhares deles, por toda a parte, e cada vez mais fortes e
bizarros.
Era óbvio que as pessoas eram afetadas por esses espíritos.
Muitas desapareciam ou morriam de causas inexplicáveis. Sinceramente, gostaria
de fazer mais por aquele lugar e por toda aquela gente. Mas éramos somente eu e
Alex. Não podíamos abraçar o mundo.
Alex desligou o telefone e voltou para mim. Encaramos o
lugar por um instante. Depois, nós nos entreolhamos, consentimos, então
caminhamos até o edifício amaldiçoado. Aquele maldito edifício amaldiçoado.
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| Capítulo Um - Dandara Majo |
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| Capítulo Três - O Edifico Amaldiçoado |
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