Capítulo Quatro - A Criatura Humanoide
Estava escuro demais, mal conseguia ver a criança.
“Mais uma sobrevivente.” Pensei.
— Você mora aqui? — gritei. “Que pergunta idiota!” Era óbvio
que ela morava ali. — Vêm, me dá a sua
mão. Vamos sair daqui — eu me aproximei um pouco quando ofereci a minha mão à
criança.
Ela riu mais uma vez.
— Gostei de você! — disse.
Mas, ao invés de me acompanhar, a criança fez o contrário. Quanto
mais eu me aproximava, mais ela se afastava. Comecei devagar para não a assustar,
então percebi pelos risinhos que ela estava de brincadeira. Mas eu não podia
perder mais tempo naquele prédio, a fumaça começava a sufocar. Tentei pegá-la
em um pulo, mas ela conseguiu desviar. Depois subiu correndo e ria enquanto
fazia isso.
— Filha da puta! — xinguei entredentes.
Peguei o revólver mais uma vez e o recarreguei enquanto corria
escada acima.
“Vou pegar esse pirralho pelos cabelos!” pensava.
Entrou no 24º andar, a cobertura. Cheguei lá praticamente
morta de cansaço. Parei um segundo para recuperar o fôlego. Eu só não abandonei
o pirralho e fugi dali porque não queria esse peso na minha consciência. Mas eu
pensei a respeito, não posso negar.
O local parecia um salão de festas abandonado, espaçoso e
escuro, apenas iluminado por largos feixes de luz que adentravam as muitas
janelas. A criança passou por todos eles rapidamente e então parou em uma
sombra e se virou para a minha direção em uma pose cheia de sarcasmo com a mão
na cintura.
— Você não percebeu que merda está acontecendo aqui? —
berrei, cheguei a cuspir.
— Quanto mais te conheço mais eu gosto de você.
Respirei fundo.
— Mas que merda você está falando? — choraminguei. Mas logo
voltei engrossar o tom. — Bora sair daqui antes que esse prédio desmorone!
— Calma! Eu não quero sair ainda. Você não entende que estou
até agora te esperando?
— Uh?!
— Vocês humanos me fascinam. Sinceramente! — deu mais uma
risadinha. — O que eu mais gostei nesse mundo, sem dúvida é o ser humano. —
falou tão alto que a voz ecoou, o timbre infantil tornou-se grave.
Eu senti um arrepio.
Ela continuou:
— São tão rancorosos que criam intrigas entre vocês mesmos.
Guerras, mortes, preconceito. Vocês não conseguem se aceitar. Os seres humanos
se matam por causa da cor da pele, do gênero, do sexo, dos próprios desejos.
— Por que está me falando isso? — perguntei.
— Porque eu amo devorar cada um desses humanos. Outros como
eu, não tem gosto bom. Prefiro humanos, sem dúvida! O ódio que contém neles é
como um tempero especial. Entende? — não respondi. — Ele me transforma. Um dia
eu serei uma criatura completa. Aquilo que vocês, humanos, tanto querem. O ser perfeito.
Aquele que será aceito por todos.
Enquanto falava, a criança começou a andar calmamente em
minha direção. Mais uma vez senti o arrepio na espinha. Apontei o revólver para
ela.
— Oh, a arma deste tempo! Vi várias como essa por aqui. São
populares. Essa na sua mão é um clássico.
A voz dela ficou um tanto mais grave e pelas sombras parecia
que ela se transformava, aumentou de tamanho e ganhou massa. Então a silhueta tornou-se
a de uma mulher ou, talvez, a de um garoto.
— As armas que criaram para matarem uns aos outros, como têm
feito ao longo da história. — Ela continuou. — Isso me deixa tão empolgada.
Se aproximou um pouco mais e acabou passando pelo feixe de
luz. Foi quando consegui ver sua aparência enfim. Era uma criatura, era visível
pelos tons acinzentados de sua pele. O cabelo liso e escorrido, cor de petróleo
com mechas vermelhas incandescentes. Não era um homem ou uma mulher, mas
parecia uma pessoa. Estava nua e era tão magra. Tinha pequenos seios sem
mamilos, costelas em evidência e nenhum órgão sexual.
— O que é você?
— O que eu sou? Criação sua! Não ouviu nada do que eu disse?
— ela riu mais uma vez. — Quem bom que você pode me ver. A maioria não consegue
me ver. Isso é irritante.
“Em toda a minha vida só tinha visto poucas criaturas como
essa... ela pode falar e raciocinar, mas essa é ainda mais surpreendente, pois
se parece com uma pessoa. Isso me enganou por um momento”.
— Os humanos são tão fracos e rasos. Não conseguem me ver.
Uma pena.
Ela tinha desafio no olhar. Apontei a arma na cabeça, mas
ela continuou se aproximando.
— Se afasta! — gritei.
— Você é diferente, você é forte! Aposto que tem um sabor
bom e que ficarei maravilhosa depois que eu devorar você.
— Ou eu atiro!
Ela riu alto e depois ficou séria:
— Então, atira!
Eu deveria ter atirado. Não importava a distância, eu tinha
a mira boa, mas hesitei. No fundo, estava curiosa a respeito daquela criatura e
seu interesse em mim, mas ela me dava medo ao mesmo tempo. Coloquei o dedo no
gatilho. Ela parou, não saiu da mira e não demonstrou preocupação.
Ela voltou a falar, mas de uma forma mais calma, pensativa.
— Também gostei muito do dinheiro. Alguns humanos sentem
compaixão um pelo outro, isso eu entendi. Mas o dinheiro... o dinheiro está
sempre acima de tudo. E o que é o dinheiro? — voltou a rir. — Números? Papel?
Um cartão de plástico? Transação de dados? — ela gritava.
Eu ri também, o que deixou a criatura calada. Ela franziu o
cenho e me encarou com curiosidade.
— Você é a criatura mais tagarela que eu já vi — eu disse em
tom de deboche. A verdade é que eu estava apavorada, mas não podia deixar isso
transparecer. — Eu já cansei de você. — Puxei o gatilho.
Acertei as costelas dela, mas a bala passou direto.
Normalmente, eu tinha controle sobre a velocidade da munição, mas, dessa vez, atravessou
como se ela fosse feita de manteiga.
O meu espanto a fez rir mais. Atirei de novo, dessa vez me
concentrei e estalei os dedos antes que a bala adentrasse o corpo dela. Mas a
explosão foi inútil, mais uma vez abalando a estrutura do edifício. Ela mudou
sua forma por completo, se esticando como tiras para se desviar da explosão,
depois juntou todas as partes e grudou como chiclete, voltando ao normal.
— Divertido! — ela riu. — Agora é a minha vez.
Ela levantou os braços, coisas longas e roliças passavam por
baixo da sua pele, circulando pelos braços e iam em direção as mãos, como serpentes
velozes, ao se aproximarem dos pulsos, “tentáculos” delgados e avermelhados
saíram de baixo da pele e se agitavam feito mangueiras abertas enquanto
cresciam. As pontas gosmentas tornaram-se lâminas afiadas.
Se eu não tivesse rolado pelo chão a tempo, seria destruída pelas
lâminas que atacaram feito chicotes, porém tive dificuldades de desviar da
chuva de destroços do teto que fora destruído.
Ela ria e fazia gestos com os braços e com o corpo, o que,
evidentemente, controlava os tentáculos que se debatiam rápido chicoteando tudo
ao redor. Eu conseguia fugir dos ataques, pois minha velocidade e meu reflexo permitiam.
Mas fui atingida várias vezes e a estrutura do edifício não suportaria, e eu já
quase não tinha mais para onde correr.
Ela parou e me observou.
— Eu estou só brincando
com você — riu mais uma vez. — Não quero te matar. Ainda não.
— O que você quer então?
— Hum! — ela parou para pensar. — Esta é uma ótima pergunta.
Entenda, humanos e maldições fracas, eu mato ou controlo. Os fortes, eu devoro.
Eu já estava muito ferida. Coloquei a arma de volta no
coldre, ela não iria adiantar muito, pelo jeito. Peguei a adaga.
— Devorar? — questionei para tomar fôlego.
— Absorver para ser mais exata. Eu atraio as outras
criaturas para matá-las ou absorvê-las. Mas foi por acaso que descobri sobre você.
Vi seu anúncio. Depois, usei um humano para te atrair aqui. No seu caso, o
pagamento foi a isca. Quando vi que você tinha caído na armadilha, eu me senti
com tanta sorte. Até que enfim, alguém com quem eu possa me divertir.
Aumentei drasticamente os níveis de energia que emanava pelo
meu corpo. Ela notou, mas não se impressionou. Boa parte da energia imbuí no
punhal. Agora, só precisava me aproximar dela. “Dessa vez, não vou errar”.
Eu me posicionei para atacar, ela mostrou um sorriso desafiador
e disse:
— Como você é especial, vou mostrar uma coisa bem
interessante que estou aprimorando.
— Uh?! — indaguei.
A criatura juntou as mãos, e fez um sinal diferente. “Um
mudra?”
— Expansão de Domínio! — disse a criatura.
***
Uma sombra se formou embaixo dos pés dela. Então se expandiu
tão rápido que não pude evitar. A sombra tomou o local por completo nos metendo
em uma escuridão. Percebi que não estava mais no prédio, mas dentro de uma
grande estrutura, um antigo edifício industrial muito escuro. Depois, aqueles
tentáculos, muitos deles, estavam se esticando por toda parte, retesados ou
pendendo. Eram muitos.
— Aperfeiçoamento da humanidade! — ela nomeou sua técnica e
mostrou um sorriso de orgulho.
Tentáculos cobriam todo o corpo da criatura.
— O que? — gritei, olhando em volta. — Que lugar é esse?
Onde estou? — minha voz tremia.
De repente, mais tentáculos surgiram em meio à escuridão e vieram rápidos em minha direção. Alguns deles amarraram meus braços e pernas me erguendo no ar, outros dois vieram velozes e penetram meu corpo com suas pontas afiadas, no ombro e no abdômen. Gritei e me contorci com a dor.
Tanto os tentáculos que me seguravam quanto os que penetraram
minha carne passaram a sugar a minha energia e entregá-la à criatura. Comecei a
me sentir fraca.
— Sua energia é diferente. Ela é esplêndida! — Ela revirava
os olhos com feição de prazer. — Você é diferente! O que é você?
— Eu? — minha energia se esvaia. — Eu sou... Sou só uma
bruxa qualquer.
“Então era assim que ela devorava pessoas e maldições”. —
Ah! — gemi.
Ela ria, gemia alto, tocava o próprio corpo, como se
estivesse a ponto de gozar. Talvez ao me ver amarrada daquela forma, sem
conseguir me mexer a ajudasse a alcançar o orgasmo. Eu estava totalmente
submissa, sem outra opção senão a de me entregar a ela. E, assim, ajudá-la a
ser a criatura perfeita que ela gostaria de ser.
A dor era tão intensa que eu desejei morrer. Estava a ponto
de me entregar à morte. Meus resquícios fariam parte daquela criatura.
“Não! Não posso desistir fácil assim”. “Pensa, Dandara!
Pensa!”
Ainda tinha o punhal em uma das mãos. A energia que imbuí
nele podia pelo menos ferir a criatura, se eu pudesse me aproximar dela... ou
cortar um desses tentáculos.
Eu me debatia, queria me soltar de alguma forma e enfiar o
punhal na cara daquela criatura nojenta.
Porém, antes que ela pudesse sentir o verdadeiro sabor de um
orgasmo ao finalmente me matar ou que eu arrumasse um jeito de sair daquela
situação, um barulho nos trouxe de volta à realidade. Olhei em volta, estava
escuro. Mesmo assim, parecia um local tão amplo. Não tinha como saber de onde
surgia aquele ruído.
Percebi uma tênue preocupação na feição da criatura. Mesmo
assim, ela não parava de me absorver.
Mais uma vez o barulho, ele parecia distante.
“Vidro? Era vidro quebrando!”
Um machado apareceu entre estilhaços, criando uma fresta em
meio ao nada. Um braço, alguém estava disposto a entrar.
— Alex! — gritei. Meus olhos encheram de lágrimas. — Foge
daqui! Vai embora! — Eu berrava em vão.
Pois, ele entrou sem nenhuma dúvida. Pulou e rolou no chão.
Ao se levantar, jogou o machado na minha direção com aquela mesma destreza de
antes. Foi certeiro no tentáculo que segurava minha mão. Aproveitei o momento e
usei o punhal para decepar os outros. E consegui ficar livre.
Mas o punhal escapou da minha mão, por causa do debater dos
tentáculos, e desapareceu na escuridão. Eu rolei quando caí no chão para me
equilibrar.
Nesse momento, outros tentáculos surgiram e velozes
atingiram Alex no abdômen e na virilha, o atravessando. Seu grito de dor ecoou
pelo local.
Peguei minha arma e mirei na criatura. Porém, em questão de
um ou dois milésimos, ela absorveu Alex por completo. O que ela segurava na
pontas daqueles tentáculos nojentos tornou-se uma múmia seca. Eu fiquei em
choque.
— Já morreu? — disse a criatura em tom de deboche, depois
riu. — Mal absorvi e já morreu. Tão fraquinho coitadinho.
Foi quando o berro, enfim, saiu da minha garganta. —
Nãaaaaoooo!!! — Caí de joelhos.
A criatura ficou impressionada com o meu sofrimento, como se
não entendesse a importância daquele rapaz para mim.
— Você vai pagar por isso! — eu disse entre lágrimas.
Levantei-me enfurecida e atirei o restante da munição. As
balas a perfuraram, mas antes que atravessassem, estalei os dedos. Então, houve
a explosão. Aproveitei a distração e corri em direção ao buraco que Alex tinha
criado. Quando saí, a barreira, que pelo lado de fora se parecia como um
invólucro de vidro, estourou por inteiro.
O prédio, enfim, começou a desmoronar. Eu continuei correndo
sentindo o chão se desfazer abaixo dos meus pés. Pulei por uma vidraça, caí e
rolei no telhado do prédio ao lado. Continuei correndo porque o edifício em que
eu estava com certeza seria afetado pelo desmoronamento. Pulei para outro
prédio sem olhar para trás.
Entrei por uma porta e desci as escadas correndo procurando
uma saída. Do lado de fora, o ar estava tomado de fumaça e poeira.
Aproveitei o momento para escapar daquele lugar. Pois,
acreditava que aquela criatura poderia ter sobrevivido aquilo tudo.
***
“Ainda bem!” pensei quando senti as gotas frias da chuva que
se iniciava acertarem meu couro cabeludo.
Deixei-me cair em um beco qualquer exausta, sentindo uma dor
intensa no corpo. Mas não era mais forte do que a dor da perder alguém outra
vez. A culpa parecia que iria arrancar meus pulmões, meu coração. Bem que eu
queria que isso acontecesse de verdade. Mais uma vez eu chorei muito, feito uma
criança. Berrei toda a minha frustração. Eu comecei a bater em mim mesma
tamanho era o ódio que eu sentia. Eu odiei a criatura, por ser tão horrível.
Depois, odiei o Alex, por ter voltado ao prédio e odiei a mim mesma, por ser
tão inútil e fraca.
“Esse mundo de merda!”
Fiquei ali por um tempo, encharcada e cheia de remorso, me
sentindo um lixo. Minha cabeça latejava de tanta dor e meu nariz estava
entupido. Um pouco mais calma, tirei a jaqueta. Criei coragem e usei os dedos para
arrancar o restante de um dos tentáculos do meu ombro. Sangrei muito, fiquei
tonta, mas aquilo saiu. Tentei me acalmar e torci para não perder a
consciência, pois ainda tinha mais um pedaço daquele asqueroso dentro de mim.
Meti os dedos no ferimento do abdômen e arranquei aquela
coisa nojenta das minhas entranhas com um gemido alto. Os pedaços de tentáculos
estremeceram no chão por alguns segundos e se desfizeram.
— Criatura filha da puta! — balbuciei.
Senti tontura quando me levantei.
“O que eu faço agora?” pensava. “Hospital?”
Ah, faria sentido ir ao hospital e tomar alguns pontos
nesses ferimentos. Mas depois do desmoronamento daquele prédio, de tudo o que
aconteceu por ali, achei que a melhor coisa que eu poderia fazer era voltar
para casa. Sim, pois eu seria questionada lá. E já tenho problemas demais com
as autoridades. Eu posso costurar a mim mesma.
Procrastinei o pouco tempo que tinha, a decisão era
complicada, mas não podia ficar ali ou morreria e a morte de Alex seria em vão.
— Então, está decidido! Quero minha casa!
Fui andando. Quase não tinha movimento nas ruas. Porém, no
local de onde fugi tinha até helicóptero. Eu pensava muito e chorava feito uma
criança por todo o trajeto.
“Alex, por favor, me perdoe, eu sou fraca!”
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