Capítulo 5 - O homem com olhos enfaixados

 

Registro: 26 de abril de 2017

A Escola Técnica Superior de Jujutsu de Tóquio foi convocada para uma reunião com autoridades brasileiras de forma remota. A pauta era a execução de uma suposta feiticeira considerada perigosa. Depois de análise, o alto escalão de Jujutsu no Japão concordou com a execução da mulher, visto que o perigo poderia se tornar internacional e que deveria ser solucionado imediatamente.

Dada a natureza emergencial, o feiticeiro mais forte, Satoru Gojo, foi enviado ao Brasil. Sua tarefa era a de encontrar, interrogar e executar a feiticeira.

Registro: 1 de maio 2017

Satoru Gojo encontrou a feiticeira no centro da capital de São Paulo, no topo do Edifício Mackenzie, horas depois do desmoronamento do Edifício Wilson Paes de Almeida no Largo do Paissandu.

Depois de capturada, Dandara Majo foi levada para interrogatório.

***

A chuva enfraqueceu enquanto eu caminhava. A adrenalina também, já que os ferimentos se tornaram insuportáveis. Não sabia o que poderia fazer para aliviar a dor, mas utilizei minha energia para estancar o sangramento. Só queria chegar naquele muquifo minúsculo que eu chamava de lar... e de escritório.

Quando estava próximo ao prédio que eu morava, percebi as luzes vermelhas piscando. Além de algumas viaturas da polícia paradas ali perto, ainda tinha um carro preto estacionado.

“Caramba! A polícia já está me procurando?” pensei.

Diminui o passo para não causar estranheza, e, andando devagar, analisei o local. Perto do carro preto havia dois homens; um baixo, aparentava uns 40 anos de idade, segurava um guarda-chuva e um celular. O outro, todo de preto, estava com as mãos nos bolsos, despretensioso. Era alto, tinha cabelos brancos arrepiados e usava ataduras cobrindo os olhos. Ele parecia ter percebido a minha presença, pois virou-se na minha direção. Mas, além dele ter os olhos cobertos, eu estava distante, não acreditei que ele tivesse realmente reparado na minha presença. Então, resolvi diminuir ainda mais o passo e assim que possível mudaria o meu caminho para a direção oposta. Mas, antes, ele levantou a mão e fez um aceno como se quisesse chamar a minha atenção.

A energia daquele homem era monstruosa, nunca tinha sentido algo como aquilo antes. Voltou a mão no bolso e andou ao meu encontro.

“Droga!”

Eu não sabia quem era ele, mas sabia que era problema, principalmente por estar acompanhado pela polícia. Talvez esse último incidente tenha sido demais. Talvez fosse a hora de alguém tentar me parar. E não eram só as autoridades que queriam isso. Minha vida estava em risco. De novo!

Virei e caminhei com passo apressado sem olhar para trás por um tempo. Depois virei o rosto para verificar; ele continuava me acompanhando, mas ainda com calma.

Não sei o porquê, mas o sacrifício de Alex me veio à memória, aquilo foi o suficiente para me motivar.

“Ah, mas não vai ser hoje!”

Acho que eu tirei energia do “cu” para ainda estar viva, porque eu estava e não desperdiçaria isso. Então, simplesmente comecei a correr. Sai correndo o mais rápido que eu podia. Adentrei as ruas e becos. Pois eu conhecia aquele lugar, sabia como desaparecer, mesmo com o baixo movimento do horário. Aquele era o meu território. Olhei para trás enquanto corria. Ele já não estava no meu encalço.

“Consegui!”

Mas quando voltei meu rosto para frente, lá estava ele. Tranquilo, como se não tivesse movimentado um dedo para chegar até ali. Derrapei pelo chão molhado. Caí sentada em frente a ele. Eu não poderia estar mais encrencada.

“O que?”

Eu me levantei apressada. Patinei no piso histórico, mas consegui fugir outra vez. As pontadas de dor pediam que eu parasse, porém, minhas pernas não obedeciam. Eu virei à direita, depois à esquerda, depois esquerda de novo e direita. Não tinha como ele me encontrar. Eu sou rápida quando eu quero. Por mais que eu estivesse ferida, podia usar a energia para fortalecer meus músculos e aumentar a minha velocidade.


“Não pode ser!” arregalei os olhos.

Cheguei na região da República, e lá estava ele.

“Não era possível!” pensei.

Desviei do homem vendado, desci as escadas da estação de metrô. Pulei a catraca. Corri rumo ao trem que já estava na plataforma. Olhei para trás. O homem caminhava na minha direção de forma tranquila. Parecia um pouco confuso talvez. Mas não importava o que eu fazia, ele conseguia me alcançar.

Entrei na frente do trem antes dele partir e corri pelos trilhos. Cheguei rápido na outra estação. Subi na plataforma e corri para as escadas.

Berrei quando saí da estação. O grito assustou os poucos que estavam no local.

O homem vendado estava lá! Ele me esperava próximo ao portão, com os braços cruzados e encostado numa pose descontraída enquanto sorria. A energia monstruosa.

“Essa porra teleportou?!”

Percebi que não tinha como fugir. Eu não tinha outra escolha senão lutar. Mesmo assim, sem chance de vencer aquele cara, ele provavelmente foi contratado para me matar. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas ele era forte demais.

***

Entretanto, eu tinha um plano. Dei as costas a ele e voltei a correr, subi o restante das escadas. A vantagem era que eu conhecia muito bem o lugar. Sabia onde eu estava. Virei à direita quando alcancei a rua. Depois, usei uma passagem alternativa por entre uma área em construção, assim entrei em um shopping que já estava fechado naquele horário. Talvez eu pudesse me esconder lá. E, se eu não conseguir isso, vou pegá-lo de surpresa.

Subi pelas escadas rolantes desligadas e fui para o terraço. Me escondi abaixada perto de algumas plantas, saquei a arma e a recarreguei.


— Hey, fala sério?! — ele chegou. — Eu nem estava a fim de vir — disse. — E agora você vai simplesmente fugir de mim? Para com isso!

“Ele está zombando de mim?” eu me perguntei.

Dei uma espiadinha através das folhas, o sorrisinho dele era mesmo irritante. Levantei e dei alguns passos me mostrando para ele. Queria que notasse a fúria nos meus olhos.

— Hehehe! Até que enfim! Estava mesmo querendo conversar com você.

— Quem te mandou? Quem está querendo me matar dessa vez?

— Poxa, já está até sabendo por que estou aqui?! Assim estragou a surpresa.

“Ah, como era irritante aquele sorriso!”

Apontei a arma para ele.

— Vou avisar só uma vez — eu disse.

— Uma arma? — ele ficou sério. — Não diga que pretende usar isso? Pretende?

— Advinha? — eu perguntei.

Não esperei por uma resposta, apenas atirei. Era um alvo fácil. Parado na minha frente como ele estava, não tinha como errar.

Você é do tipo que atira primeiro e pergunta depois — ele levantou os dedos indicador e médio de uma das mãos, e a bala disparada em sua direção diminuiu a velocidade e ficou como se estivesse parada e flutuando a sua frente. — Eu não esperava menos de uma feiticeira brasileira — sorriu.

— Mas que merda é essa? — eu perguntei.

Ele riu.

Aquilo não iria funcionar. Pensei um pouco e tomei uma decisão rápida. Continuei com ele na mira.

— O que? Vai continuar tentando? Essa é insistente! — riu outra vez.

Atirei 5 vezes, até descarregar a arma. A munição foi uma a uma parando em frente a ele, que continuava em uma posição tranquila, descontraída. Uma mão no bolso da jaqueta escura de gola alta, a outra mão levantada com o gesto.

Cessou o sorrisinho por um minuto e fitou o que estava na sua frente.

— Essa munição está imbuída com energia amaldiçoada. O que aconteceria se me acertasse? — ele perguntou.

— Idiota! — eu disse com firmeza e estalei os dedos.

A explosão foi tão forte que me arremessou para longe. Boa parte do chão onde ele estava desabou para o andar de baixo formando uma cratera. Mas acreditei que, mesmo poderosa, a explosão não abalaria a estrutura de um edifício forte e parrudo como aquele.

Eu respirei fundo, depois me levantei olhando em direção à esfera de fogo que ardia na minha frente. Voltei a relaxar. Respirei fundo mais uma vez e senti aquele nó na garganta. Já não aguentava mais chorar.

— Sinceramente?! — eu disse. — Não queria que terminasse assim. Eu não quero mais machucar ninguém! — Meus olhos inundaram. Então deixei o choro escapar.

— Oh, coisa fofa? — era a voz dele. — Por que você está chorando aí, hein? — tossiu. — Munição explosiva? — riu alto. — Que safadinha!

“O que?”

O fogo se desfez. E lá estava o homem de olhos vendados. Ele flutuava em meio a cratera, ainda com uma mão no bolso e usando a outra para abanar a fumaça em volta dele, ele estava intacto, como se nada tivesse acontecido.

— Isso não é possível! — gritei. — Eu explodi você! — apontei. — Acabei de ver a pressão e o fogo te tomando! Como pode ainda estar aqui?

— O que foi? Está confusa? — riu alto. — Deixa-me explicar. É que você não me acertou!

— Acertei! Tenho certeza de que acertei! Não tinha como a explosão dessa magnitude não explodir você! — berrei.

— Não. Na verdade, a explosão atingiu o infinito entre mim e você — ele aproximou o polegar do indicador demonstrando o espaço entre eles.

— O que? Como assim?

— Bom... O infinito está em todo lugar, a minha técnica Jujutsu é trazer ele para a realidade.  O Mugen é como uma convergência do infinito. A ideia vem direto do paradoxo de Aquiles e da tartaruga. Conhece o paradoxo entre Aquiles e a Tartaruga?

Eu fiquei sem saber o que responder.

— Ah, quem estou tentando enganar? — ele continuou. —  É claro que você não conhece. O Brasil é um país conhecido pelo seu péssimo sistema de ensino.

“Ele acabou de insultar o sistema de ensino do meu país?” Pensei.

— Talvez seja melhor, se eu mostrar para você.

Ele flutuou até onde seus pés pudessem tocar o chão.

— Não se aproxime! — gritei.

Em um ato de desespero dei as costas a ele mais uma vez e tentei correr dali. Mas assim que virei ele já estava lá. foram apenas dois passos e bati de cara naquela parede invisível que ele dizia cercá-lo e fui repelida caindo sentada.

— Fica calma aí, mocinha. Eu não disse que iria mostrar para você?

Ele abriu a mão em minha direção e esticou seus longos dedos.

— Toque aqui — ele disse fazendo uma vozinha engraçada.

“Ele está brincando comigo?”

— Bora! Bora! — insistia de forma infantil balançando a mão.

“Ele não demonstra que pretende atacar. Vamos ver o que ele quer.”

Eu me levantei e me aproximei devagar. Ergui minha mão em frente a mão dele e tentei tocá-la.

“hã?!”

— Viu? — de novo ele disse com a voz fina, como se estivesse falando com uma criança.

Aconteceu o mesmo que com a munição. Minha mão parou a uma certa distância da dele e eu não conseguia passar dali.

— Não é que sua mão esteja parada — ele explicou. — Mas a velocidade diminui cada vez mais, conforme tenta se aproximar. Por isso, fica impossível me alcançar.

— Meu deus do céu! — exclamei.

— Mas não se preocupe, nós podemos entrelaçar os nossos dedos assim.

Os dedos dele se encaixaram nos vãos entre os meus dedos e ele segurou a minha mão. Tentei puxar de volta, mas era como se a minha mão estivesse colada na dele, nem meus dedos abriam.

“Mas o que?”

— Tá tímida, fofinha? — ele me puxou para muito próximo dele, como se fossemos dançar. Nossos rostos ficaram quase colados. — Assim também vou ficar acanhado — ele sorriu.

Eu encarava aquele sorrisão de olhos arregalados, ele me pegou tão fácil. Eu não conseguia pensar em um modo de escapar daquele homem. Foi quando senti o arrepio na espinha. Mas aquela sensação era diferente, ela não vinha dele.

***

Então, notamos uma fumaça escura passando baixo, rente as ruas, percorrendo por entre os prédios. Olhando bem, parecia que eram nuvens cheias de fragmentos escuros que flutuavam rápido e vinham de diferentes direções.

Toda a fumaça se reunia na encruzilhada da Rua Xavier de Toledo, ao lado do Teatro Municipal. A fumaça se amontoava se concentrando uma única forma que aumentava de tamanho, rapidamente alcançou mais de 30 metros de altura. Seus membros e seu corpo tomaram forma assim que os fragmentos se comprimiram. Por último, sua cabeça se formou, um crânio ossudo enfeitado com um cocar indígena de penas pretas. Era uma criatura colossal. Uma entidade com aparência esquelética e mumificada.


Testemunhamos a formação de uma criatura histórica no continente americano. Calamidade! Pouco se sabia sobre ela, apenas que estava presente em momentos trágicos em diversos países, em diferentes épocas. Era um tipo de criatura que eu jamais enfrentaria, pois seria morta junto com tantos outros inocentes em uma batalha que terminaria em uma tragédia.

Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Encarei o homem de olhos vendados. De repente, tudo fez sentido. Era ele! Uma das criaturas mais fortes não simplesmente apareceu do nada, ela foi atraída por esse monstro que segurava firmemente a minha mão. “Claro, monstros se atraem!”

Depois de completamente formado, Calamidade suspirou, um bafo escuro e cheio de fragmentos saiu de sua boa. Ela virou seus olhos flamejantes em nossa direção. Deu um passo, depois outro, destruindo todo o asfalto com seus enormes pés. O edifício tremia conforme ela andava. Vinha exatamente na nossa direção, confirmando a teoria que aquele homem estava atraindo-a.

“Estou morta!” pensei.

Mas o sorrisinho confiante não deixou os lábios dele.

— Fica tranquila! Eu sou o mais forte aqui! — ele disse.

Então, pensei melhor. Talvez aquela criatura colossal fosse a minha escapatória. Sim, pois para enfrentar ela, o maldito homem teria que me soltar. Seria uma oportunidade única de escapar, ou de morrer tentando.

— Ah, vê se não atrapalha! — ele disse sério.

O homem com olhos enfaixados apontou a palma da sua outra mão em direção a criatura e uma esfera escura rodeada de luzes vermelhas se formou. As luzes aumentaram e os feixes ficavam mais largos iluminando todo o local. A criatura deu mais um passo, então ele atirou a esfera na criatura, praticamente sem mover o braço. A esfera repleta de feixes de luzes incandescentes voou rápida formando um raio vermelho que perfurou a criatura rompendo a maior parte do seu tórax. A pressão empurrou uma corrente de ar para cima de nós como uma ventania. Muitas janelas e outras vidraças do edifício estouraram violentamente.

A criatura deu um passo para trás cambaleando e, então, se desfez criando um amontoado de energia amaldiçoada que caiu violentamente e percorreu as ruas formando um rio que inundou a Praça Ramos de Azevedo por um instante.

— Calamidade foi... ela foi... derrotada! — balbuciei, incrédula.

Eu tremia, não acreditava que vi Calamidade, uma das criaturas mais temidas do mundo, se formar diante dos meus olhos, e ela foi derrotada por um único ataque.  

Encarei o homem de olhos vendados. Meus lábios estremeciam. Sem soltar a minha mão, ele me puxou para mais perto e me abraçou pela cintura com um leve sorriso.


— Por favor, me deixa ir? — eu implorei.

— Ah, mas eu não posso. Não antes da gente conversar.

— O que vai fazer? — perguntei.

Ele soltou a minha mão, depois tocou minha testa com dois dedos.

— Relaxa! — ele sussurrou.

Depois disso, eu apaguei.

***

Muito obrigada, leitor ou leitora.

Fazer esse capítulo foi muito trabalhoso, tanto para a escrita quanto para as artes. Mas eu fiz tudo isso com muito capricho e carinho para mostrar a minha imaginação para você. Espero que goste, se emocione e se divirta tanto quanto eu. Por favor, conte para mim a sua opinião ou sugestão, pode ser por aqui ou por qualquer outra rede social, eu ficaria muito feliz.

O Capítulo 6 já está em produção e irei me esforçar muito para entregar esse capítulo a você em breve. Nos vemos lá.

Um beijo grande. 

Capítulo 4 - A Criatura Humanoide



Capítulo 6 -O Interrogatório
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